A
arte contemporânea ocupa lugar de relevância para a reflexão sobre os temas
atuais e para a proposição de novas abordagens estéticas e conceituais em um
mundo que experimenta novas dinâmicas e limites. [...] tornam-se, nessa medida,
eixos sobre os quais se delineia a urgência de impressão e expressão visual dos
percursos do olhar, que presentifiquem seu entorno – individual e comum
(Benjamin Zymler).
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma
cama branca
e limpa à minha espera:
mudo
convite
tenho uma
vida branca
e limpa à minha espera
(Ana
Cristina Cesar)
1.
INTRODUÇÃO
A instalação da artista
brasiliense Dani Dumoulin intitulada “A Construção” faz parte da exposição
coletiva “O Tempo Acabou” que aconteceu na Galeria da UnB (CLN 406 Norte, bloco
A, Brasília, DF) entre 23 e 30 de março de 2012. A curadoria foi feita por
Luísa Dalé e Daniel Fernandes que selecionaram os dez artistas: André Vilarins,
Daniela Bressam, Daniele Dumoulin, Gabriel Luan, Gregório Soares, Gustavo
Maciel, Natasha Albuquerque, Ricardo Caldeira, Rita Almeida e Thales Noor.
“A
Construção” é composta por duas estruturas (formalmente) distintas, mesmo que
se homogeneízem no olhar que é “roubado” primeiro para parede onde constam
fixadas 43 pastilhas de cerâmica brancas, ora desenhadas, ora não, numa espécie
de nuvem descontínua. Essa dispersão dos quadros, que vemos usualmente em
blocos ornamentando fachadas, pode sugerir fragmentação. Tal descontinuidade presente
na configuração dos quadros é reforçada pelos desenhos de objetos cotidianos de
maneira figurativa não realista, em que observamos simplificação dos traços e
forte contorno destes.
Máquina de escrever, Ipod, óculos, livros, sapato, tudo isso
pode ocupar (em seus respectivos quadros, claro) a mesma nuvem, sem pensarmos
em coerência na primeira olhadela. O anacrônico e o contemporâneo podem dividir
o mesmo espaço (com o devido espaçamento) para que a liquidez que as envolve se
desloque e a forma possa assim, fluida, modificar-se.
A passagem do tempo na obra
aparece nessa mescla de objetos permeados de diversos significados que não
podem ser aprofundados porque o olhar é muito mais rápido que a concatenação de
ideias. Para compreender o que vemos, é preciso tempo de fragmentar o que os
olhos captam, entender os elementos e tornar a juntá-los (TIBURI ). Nesse
sentido, “A Construção” traduz o tipo de olhar contemporâneo - hipertexto – que se caracteriza pela
leitura superficial e fragmentada das informações também dispersas. A “nuvem” na
instalação é lida como uma página na internet, que demanda uma seleção rápida
de suas diversas informações que serão lidas ou entendidas conforme o tempo
disponível.
No centro
da nuvem de cerâmica há um quadrado feito com quatro azulejos juntos e neles há
o desenho de um garoto imberbe. Os objetos da nuvem, podemos supor, são partes
do todo que compõe o universo (quem sabe) adolescente do individuo representado.
Há uma ruptura do tempo se
identificarmos as personagens como uma só pessoa que segue da infância à fase
adulta. Essa passagem do tempo sugere a construção do ser a partir do exterior.
A formação identitária também passa pela fusão coesa dos elementos exteriores
que também mudam através das Eras. Os objetos tecnológicos como máquina de
escrever e Ipod mostram a passagem do tempo no mundo pelo avanço tecnológico.
Por sua vez, a referencia ao artista Magritte, observada na imagem do cachimbo,
acompanhando a frase Ceci n'est pas une
pipe (Isso não é um cachimbo), representa uma transição do pensamento sobre
arte, no século XX. Todas essas mudanças influenciam nossa perspectiva sobre o
tempo que também modifica nossa auto construção, autopoeise, simbolizada pelo
crescimento da barba do personagem ilustrado por Dumoulin.
A
aparente rigidez da cerâmica cândida intervinda pela caneta preta parece ter
possibilidades de movimento e, ao integrar os diferentes objetos de tempos
distintos mostra-nos que o estático, se move. A xícara se relaciona pela cor,
material e intervenção do desenho. Mas por que a xícara?
Podemos
ver na xícara uma relação de material e cor com o azulejo. Ambos são feitos de
porcelana, e puderam ser modificados da mesma maneira, pela tinta preta. Por
outro lado, temos uma diferente intencionalidade na produção de azulejo e
xícara. Ambos são produtos industrializados, mas o segundo tem um objetivo
sofisticado e de uso individual oque se relaciona ao momento da vida adulta
devido a questões, sobretudo, da necessidade de inserção no mercado de
trabalho, na produção capitalista.
Em
seguida os olhos são fisgados para a segunda parte da obra que é a mesinha de
cabeceira roxa de forma arredondada. Na mesa há um pires sob a xícara de chá
feitos de porcelana branca. Esse suposto convite para o chá faz ver o detalhe
exterior, na xicara: um homem imberbe. A sutil diferença entre o garoto na
parede e o homem na xícara, já que são desenhos simples, e até certo ponto,
infantilizados, é a quantidade de traços. A mesa e o espelho também são
produtos de massa, feitos em série, objetos de uso cotidiano. Sob a perspectiva
do uso, reforçam a individualidade presente no protagonismo do personagem
(desenho) e porque não indicam, inclusive pelo tamanho, o uso coletivo. O
espelho só pode refletir uma coisa por vez, a mesa não comporta muitos objetos
e isso indica certa afinidade com a proposição dos azulejos, da construção da
individualidade.
Olhando
a porção esquerda da mesinha, enxergamos o tom de metodismo que transparece na
obra: um saquinho de lenços Kiss e, sobre ele, uma caneta – supostamente a que
a artista usou, outro mudo convite: Escreva, grava, desenha! E o ladrilho em
branco disperso grita: escreva-me, grava-me, desenha-me! Nesse caso, escolher
ser espectador, voyeur ou participante é escolha de quem (ouve) vê. O vazio
nesse caso, não é a simples ausência. É a possibilidade de preenchimento (TIBURI).
Atrás dos lenços, há um
frasco sem rótulo, mas com o desenho de uma borracha e os dizeres “= borracha”.
Aqui, facilmente adentramos o jogo. Tinta de caneta é apagável com álcool. O
frasco está cheio, pra que o/a participante possa abrir, inalar, escrever e
apagar pra vivenciar uma das possíveis maneiras de integralidade da obra.
As formas de entendimento
das obras, se pensadas pela semiótica da imagem, possibilitam variadas
possibilidades de acepção. A interatividade nas obras contemporâneas é uma
possibilidade de experienciar a obra, tão fruitiva quanto a não interação. Essa
interatividade foi criada em 1913 por Marcell Duchamp sob o título de ready-made (já pronto). A obra que
inaugurou “Roda de bicicleta” (
http://intra.vila.com.br/sites_2002a/urbana/antonia/imagens/bicicleta.jpg ) é a junção de objetos de produção
industrial (aro de bicicleta e banco de madeira), elementos prontos, que compõe
a obra. A roda foi feita pra ser girada, embora muitos não saibam. Nem sempre é
tão óbvio que as obras são interativas, mesmo porque elas se chocam com o
sistema proibitivo do museu, que nos afasta da obra fisicamente, porque não
podemos tocá-las.
2. POR QUE A MANIFESTAÇÃO É CONTEMPORANEA
Uma
das principais marcas da Arte Contemporanea no contexto das Artes Plásticas é a
referencia. No caso d’ “A Construção” podemos destacar duas referencias: a
artista plástica brasileira Adriana Varejão e o quadrinista português Luíz Cruz
Guerreiro.
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Enquanto podemos (entre)ver
o processo de composição da obra de Dumoulin, na exposição dos materais e podemos,
de certo modo, vivenciá-lo por meio de outros sentidos; diferente das obras
anteriores às vanguardas, podemos entrar, mexer, destruir a obra contemporanea,
porque passamos da situação de simples contempladores a coautores. Essa
aproximação do espectador com a obra aproxima a arte da vida, do cotidiano e se
reflete no deslocamento do objeto não-artístico, pronto, na obra de arte.
Por fim, podemos dizer que a
obra de Dani Dumoulin pode ser considerada manifestação contemporânea porque é
efêmera. Tanto se modifica devido ao espaço expositivo, como pela intervenção
do público. A transformação não é controlável pela autora, porque a
continuidade da obra depende de quem opta por escrever nos azulejos. Esse
descontrole oriundo da interatividade retira da obra o fetichismo encontrado em
obras convencionais, que devem sobreviver ao tempo, conservadas. Esse
rompimento com a ideologia fetichizante da Arte, traz a obra contemporânea para
o cotidiano de quem a contempla. Nesse sentido, ao deslocar objetos do
cotidiano, produzidos em massa e torna-los interferiveis, Dumoulin faz uma arte
sobre o mundo inserida nele, noutras palavras, contemporânea.
3.
Referencias
ARCHER, Michael. Arte
Contemporânea: uma história
concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BASBAUM, Ricardo (org). Arte contemporânea Brasileira: textura,
dicções, ficções, estratégias. _____
TIBURI, Márcia. Aprender a pensar é descobrir o olhar. Disponivel em: http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos_texto.php?id_m=26
www.embaixada-portugal-brasil.blogspot.com.br/2010/08/artista-portugues-expoe-hoje-em.html.
www.inhotim.org.br/index.php/arte/obra/view/130.












