sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Construção


A arte contemporânea ocupa lugar de relevância para a reflexão sobre os temas atuais e para a proposição de novas abordagens estéticas e conceituais em um mundo que experimenta novas dinâmicas e limites. [...] tornam-se, nessa medida, eixos sobre os quais se delineia a urgência de impressão e expressão visual dos percursos do olhar, que presentifiquem seu entorno – individual e comum (Benjamin Zymler).



Tenho uma folha branca
                            e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
                            e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca
                            e limpa à minha espera

(Ana Cristina Cesar)


1.      INTRODUÇÃO

A instalação da artista brasiliense Dani Dumoulin intitulada “A Construção” faz parte da exposição coletiva “O Tempo Acabou” que aconteceu na Galeria da UnB (CLN 406 Norte, bloco A, Brasília, DF) entre 23 e 30 de março de 2012. A curadoria foi feita por Luísa Dalé e Daniel Fernandes que selecionaram os dez artistas: André Vilarins, Daniela Bressam, Daniele Dumoulin, Gabriel Luan, Gregório Soares, Gustavo Maciel, Natasha Albuquerque, Ricardo Caldeira, Rita Almeida e Thales Noor.
“A Construção” é composta por duas estruturas (formalmente) distintas, mesmo que se homogeneízem no olhar que é “roubado” primeiro para parede onde constam fixadas 43 pastilhas de cerâmica brancas, ora desenhadas, ora não, numa espécie de nuvem descontínua. Essa dispersão dos quadros, que vemos usualmente em blocos ornamentando fachadas, pode sugerir fragmentação. Tal descontinuidade presente na configuração dos quadros é reforçada pelos desenhos de objetos cotidianos de maneira figurativa não realista, em que observamos simplificação dos traços e forte contorno destes.
Máquina de escrever, Ipod, óculos, livros, sapato, tudo isso pode ocupar (em seus respectivos quadros, claro) a mesma nuvem, sem pensarmos em coerência na primeira olhadela. O anacrônico e o contemporâneo podem dividir o mesmo espaço (com o devido espaçamento) para que a liquidez que as envolve se desloque e a forma possa assim, fluida, modificar-se.
A passagem do tempo na obra aparece nessa mescla de objetos permeados de diversos significados que não podem ser aprofundados porque o olhar é muito mais rápido que a concatenação de ideias. Para compreender o que vemos, é preciso tempo de fragmentar o que os olhos captam, entender os elementos e tornar a juntá-los (TIBURI ). Nesse sentido, “A Construção” traduz o tipo de olhar contemporâneo - hipertexto – que se caracteriza pela leitura superficial e fragmentada das informações também dispersas. A “nuvem” na instalação é lida como uma página na internet, que demanda uma seleção rápida de suas diversas informações que serão lidas ou entendidas conforme o tempo disponível.
No centro da nuvem de cerâmica há um quadrado feito com quatro azulejos juntos e neles há o desenho de um garoto imberbe. Os objetos da nuvem, podemos supor, são partes do todo que compõe o universo (quem sabe) adolescente do individuo representado.
Há uma ruptura do tempo se identificarmos as personagens como uma só pessoa que segue da infância à fase adulta. Essa passagem do tempo sugere a construção do ser a partir do exterior. A formação identitária também passa pela fusão coesa dos elementos exteriores que também mudam através das Eras. Os objetos tecnológicos como máquina de escrever e Ipod mostram a passagem do tempo no mundo pelo avanço tecnológico. Por sua vez, a referencia ao artista Magritte, observada na imagem do cachimbo, acompanhando a frase Ceci n'est pas une pipe (Isso não é um cachimbo), representa uma transição do pensamento sobre arte, no século XX. Todas essas mudanças influenciam nossa perspectiva sobre o tempo que também modifica nossa auto construção, autopoeise, simbolizada pelo crescimento da barba do personagem ilustrado por Dumoulin.
A aparente rigidez da cerâmica cândida intervinda pela caneta preta parece ter possibilidades de movimento e, ao integrar os diferentes objetos de tempos distintos mostra-nos que o estático, se move. A xícara se relaciona pela cor, material e intervenção do desenho. Mas por que a xícara?
Podemos ver na xícara uma relação de material e cor com o azulejo. Ambos são feitos de porcelana, e puderam ser modificados da mesma maneira, pela tinta preta. Por outro lado, temos uma diferente intencionalidade na produção de azulejo e xícara. Ambos são produtos industrializados, mas o segundo tem um objetivo sofisticado e de uso individual oque se relaciona ao momento da vida adulta devido a questões, sobretudo, da necessidade de inserção no mercado de trabalho, na produção capitalista.
Em seguida os olhos são fisgados para a segunda parte da obra que é a mesinha de cabeceira roxa de forma arredondada. Na mesa há um pires sob a xícara de chá feitos de porcelana branca. Esse suposto convite para o chá faz ver o detalhe exterior, na xicara: um homem imberbe. A sutil diferença entre o garoto na parede e o homem na xícara, já que são desenhos simples, e até certo ponto, infantilizados, é a quantidade de traços. A mesa e o espelho também são produtos de massa, feitos em série, objetos de uso cotidiano. Sob a perspectiva do uso, reforçam a individualidade presente no protagonismo do personagem (desenho) e porque não indicam, inclusive pelo tamanho, o uso coletivo. O espelho só pode refletir uma coisa por vez, a mesa não comporta muitos objetos e isso indica certa afinidade com a proposição dos azulejos, da construção da individualidade.
Olhando a porção esquerda da mesinha, enxergamos o tom de metodismo que transparece na obra: um saquinho de lenços Kiss e, sobre ele, uma caneta – supostamente a que a artista usou, outro mudo convite: Escreva, grava, desenha! E o ladrilho em branco disperso grita: escreva-me, grava-me, desenha-me! Nesse caso, escolher ser espectador, voyeur ou participante é escolha de quem (ouve) vê. O vazio nesse caso, não é a simples ausência. É a possibilidade de preenchimento (TIBURI).
Atrás dos lenços, há um frasco sem rótulo, mas com o desenho de uma borracha e os dizeres “= borracha”. Aqui, facilmente adentramos o jogo. Tinta de caneta é apagável com álcool. O frasco está cheio, pra que o/a participante possa abrir, inalar, escrever e apagar pra vivenciar uma das possíveis maneiras de integralidade da obra.      
As formas de entendimento das obras, se pensadas pela semiótica da imagem, possibilitam variadas possibilidades de acepção. A interatividade nas obras contemporâneas é uma possibilidade de experienciar a obra, tão fruitiva quanto a não interação. Essa interatividade foi criada em 1913 por Marcell Duchamp sob o título de ready-made (já pronto). A obra que inaugurou “Roda de bicicleta” ( http://intra.vila.com.br/sites_2002a/urbana/antonia/imagens/bicicleta.jpg ) é a junção de objetos de produção industrial (aro de bicicleta e banco de madeira), elementos prontos, que compõe a obra. A roda foi feita pra ser girada, embora muitos não saibam. Nem sempre é tão óbvio que as obras são interativas, mesmo porque elas se chocam com o sistema proibitivo do museu, que nos afasta da obra fisicamente, porque não podemos tocá-las.

Assim, “A construção” é um trabalho sobre a edificação do ser em função do tempo que é visto de diferentes formas conforme as voluções ideológicas e tecnológicas. Pode ser experienciada pela reflexão suscitada pelo olhar ou por outros sentidos que incluem o tato, além de inserir o “observador” na obra (o espelho refletindo o espectador).


2.     POR QUE A MANIFESTAÇÃO É CONTEMPORANEA

Uma das principais marcas da Arte Contemporanea no contexto das Artes Plásticas é a referencia. No caso d’ “A Construção” podemos destacar duas referencias: a artista plástica brasileira Adriana Varejão e o quadrinista português Luíz Cruz Guerreiro.

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A obra “Celacanto provoca maremoto” ( http://www.inhotim.org.br/uploads/Obras/68aa513432210d2b5137e3f999581f61_media.jpg ), de Adriana Varejão, é uma articulação de arquitetura, pintura e escultura já que é um painel feito de grandes azulejos que retomam a técnica portuguesa de azulejaria. Varejão retoma uma técnica portuguesa para tratar da questão da colonização do Brasil. Já “As aventuras de Jerílio” ( http://azulejariaguerreiro.weebly.com/uploads/4/0/6/7/4067237/2336506.jpg%3F517 ), uma história em quadrinhos (Banda Desenhada) feita em azulejo por Luiz Guerreiro, se relaciona com “A construção” por também ser um desenho figurativo não realista. A referencia de Dani Dumoulin a esses artistas citados é basicamente do suporte azulejo que ela se apropria inclusive na forma de gravá-lo, já que usa uma caneta e torna o resultado imediato, diferente da técnica portuguesa.

Outro aspecto relevante da contemporaneidade artística, legado da modernidade, é o uso de suportes não convencionais, deslocados do comum para os espaços de arte o que se conhece como ready made. O uso de objetos não-artísticos industrializados nos remete ao pensamento sobre o que é a arte e rompe o ideal de genialidade, o culto ao artista, romântico.
Enquanto podemos (entre)ver o processo de composição da obra de Dumoulin, na exposição dos materais e podemos, de certo modo, vivenciá-lo por meio de outros sentidos; diferente das obras anteriores às vanguardas, podemos entrar, mexer, destruir a obra contemporanea, porque passamos da situação de simples contempladores a coautores. Essa aproximação do espectador com a obra aproxima a arte da vida, do cotidiano e se reflete no deslocamento do objeto não-artístico, pronto, na obra de arte.
Por fim, podemos dizer que a obra de Dani Dumoulin pode ser considerada manifestação contemporânea porque é efêmera. Tanto se modifica devido ao espaço expositivo, como pela intervenção do público. A transformação não é controlável pela autora, porque a continuidade da obra depende de quem opta por escrever nos azulejos. Esse descontrole oriundo da interatividade retira da obra o fetichismo encontrado em obras convencionais, que devem sobreviver ao tempo, conservadas. Esse rompimento com a ideologia fetichizante da Arte, traz a obra contemporânea para o cotidiano de quem a contempla. Nesse sentido, ao deslocar objetos do cotidiano, produzidos em massa e torna-los interferiveis, Dumoulin faz uma arte sobre o mundo inserida nele, noutras palavras, contemporânea.


3.     Referencias

ARCHER, Michael. Arte Contemporânea: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BASBAUM, Ricardo (org). Arte contemporânea Brasileira: textura, dicções, ficções, estratégias. _____
TIBURI, Márcia. Aprender a pensar é descobrir o olhar. Disponivel em: http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos_texto.php?id_m=26
www.embaixada-portugal-brasil.blogspot.com.br/2010/08/artista-portugues-expoe-hoje-em.html.
www.inhotim.org.br/index.php/arte/obra/view/130.







sábado, 18 de agosto de 2012

Impressões sobre um Segredo Sincero








*Como se eu tivesse quarenta anos, fui sozinha deliciar-me ouvindo Leila Pinheiro (uma das coisas da minha infância). Amei.

** Cuidado: Esse blog
 não é sobre técnica, portanto, isso não é uma resenha: trata-se das sensações de uma proscrita.
***Agora, compartilho com vocês:

MEMÓRIA


Infância tem aquele cheiro de plástico das miniaturas das personagens de desenho animado com diversos instrumentos musicais enfileirados sobre o tampo de vidro da mesa de centro – a minha banda... ou o primeiro sonho. Tem cheiro da madeira do violão do meu tio, domingo de tarde, tocando “Teatro de vampiros” e “Metal contra as nuvens”, pra mim. Tem cheiro de terra remexida e de grama no quintal, lá fora, sendo arrancada por meu irmão cantando Legião Urbana com sua voz igualmente grave, entrando pela janela. Tem o cheiro das lágrimas do mesmo irmão derramadas pela morte do seu ídolo máximo: Renato Russo. Tem cheiro de "Catavento e Girassol". E de muito mais que isso.
* * *
Quando, às 20h12 tocou o terceiro sinal grave, duro e áspero como a sensação da pele rasgando no asfalto, eu tremia e, sem perceber, uma nuvem mais sólida que eu imaginava, emergiu. Nessa bruma eu me vi aos seis ou sete anos, na sala de casa, cantando junto com o aparelho de CD a última canção de "Verde, Anil, Cor-de-rosa, Carvão", desligando-o (o tão querido!) e trocando pelo "Catavento e o Girassol" pra sentir cada gota de feeling escoar pela melodia bossa-nova, das letras irreverentes cujo teor não entendia completamente - e nem poderia. Quando mamãe comprou o “Catavento”, ouviu e não gostou, guardou na estante "tenho, mas não ouço" e eu tirei de lá porque aquilo havia, de algum modo, me tocado.

Prossigamos.



LEILA U LEGIÃO

Comprei o ingresso cegamente sem saber qual era o show
(importante era ser Leila Pinheiro), mas descobri dias antes que seria uma homenagem ao Renato Russo. Em Brasília?Em Brasília. Ótimo.
Quandopercebi que seria uma cantora de MPB interpretando clássicos do rock oitentista, da Legião, suspirei um tanto desesperançosa. O conceito pré foi de que seria uma atmosfera azul, com ritmo gotejante que impediria o público sedento por acompanhar as canções conhecidas; que seria algo para a artista - e apenas ela - se deleitar. Esse conceito vem de longa data, porque se repetiram váaarias vezes, nos meus vinte anos. O primeiro detalhe do “Meu Segredo Mais Sincero” da cantora, compositora e instrumentista Leila Pinheiro é a sua inovação nesse quesito: com os diferentes arranjos de Claudio Faria, cada canção torna-se outra, e, ao mesmo tempo, permanece reconhecível, encorpada; cada palavra proferida com a forte essência nos trejeitos de Leila transborda sensações. Imensas sensações, imensas.

MEU SEGREDO MAIS SINCERO

Finalmente, apagaram as luzes da platéia. Claudio Faria (teclados, violão e voz), Maurício Oliveira (Contrabaixo e voz), Allen Pontes (Bateria) e Webster Santos (Guitarra e violão) entraram no palco nevoento sob a iluminação azulada e então começou a projeção difusa, em preto e branco, ao som de Renato Russo. Súbito arrepio. E, numa explosão de expectativas, a cantora entra, e começa “Ainda é cedo”. Era difícil não cantar junto, não mover o corpo acompanhando aquelas imagens, a vibração cúmplice entre o público a cantora, sua banda e aquelas canções tão significativas.
Quando começaram os acordes de “Há tempos”, era impossível acreditar naquela bela interpretação que unia um aparência particular groove/blues/bossa-nova e um clássico numa química apaixonante, agora, banhada em luz laranja e azul.
Índios”, “Teatro de Vampiros” e “Geração Coca-Cola”, lambidas em luz amarela, laranja e azul ondulante, foram o início da visão plena da cumplicidade do público cujo mar de sussurros se fazia ouvir como um cantar. Nessas cações, Leila pareceu tão íntima daquelas palavras, como se houvesse bebido letra a letra com imenso prazer. “Geração Coca-Cola”, na minha memória era a época em que ganhei o primeiro violão e tocava Legião numa rodinha e ensaiava com outras melodias e letras punk criadas por nós, três garotas “legionárias”. Mais ou menos na mesma época, chegaram até mim um exemplar do primeiro vinil lançado pela Legião autografado pelos Renatos (Russo e Rocha) e o vinil “Dois” (meus tesouros).
Mais uma vez, a introdução da música despertou minha curiosidade, mas a então veio Pinheiro modulando com uma pitada de aridez e a guitarra despejou “Daniel na Cova dos Leões”. Tão logo a época em que lemos “Renato Russo de A a Z” e descobrimos o que era o “gosto amargo no corpo”descrito na composição. E descobrimos muitas coisas mais. E fomos crescendo, crescendo e desenvolvendo.
Quando a próxima canção começou veio aquele arrepio: um enérgico e emocionante dueto com Renato Russo em italiano “La Solitude”. Mais tarde, vem a animadíssima “Cherish”, o dançante cover de Madonna.
Outro destaque foi a versão de bossa-nova para “Eduardo eMonica”. Nela, Leila (que dá o ritmo com violão) e Maurício (que salpica uma levada groove), dividem os vocais, como as personagens da música numa suavidade apaixonante.
Em vários momentos como “Pais e filhos”, “Hoje” e “Mais uma vez” alguns componentes da banda saem e cria-se um foco sonoro, muitas vezes com a intérprete assumindo o piano ou teclado, digitando cada acorde num visível êxtase.
Que país é esse”, “Tempo perdido” e “Será” fizeram todos cantarem com força, em uníssono, e, no fim, aplaudirem de pé, clamando pelo “bis”. Ora, voltaram e tocaram novamente “Geração Coca-cola” e “Há tempos”, para o público de pé, cantando, acompanhando o ritmo com palmas e dançando, então o público saiu extasiado, cantando e levando pra casa um enorme encanto como quem tolhe flores num campo.
Quem “pagou pra ver” pensando que haveria repetição do azul gotejante, se surpreendeu!Cantou, dançou e se emocionou enormemente. Cada arranjo cuidadosamente trabalhado com efeitos ora de música eletrônica, ora de orquestra parecia um espaço confortável que a cada um dos músicos exibia espontaneidade em seus sorrisos e olhares, satisfação em cada gesto, movimentação e dança. Resumindo: o show é como a revelação sutil de um segredo tão seu (ou meu) de forma espontânea, descontraída e amável; A extração de um dos Meus/seus/dela Segredo Mais Sincero.
Obrigada aos amigos Rodrigo e Suzana.











TEATRO DA CAIXA
SBS QUADRA 04, LOTE ¾
ANEXO AO EDIFICIO MATRIZ DA CAIXA.
Leila Pinheiro: Meu segredo mais sincero.
Dias 23 a 25 de abril de 2010.
Ingressos à R$20 e R$10.

Sítio oficial da Leila:
http://www2.uol.com.br/leilapinheiro

(Eu e a Leila Pinheiro)